Habilidades socioemocionais: muito mais do que a cereja do bolo

Nos primórdios do desenvolvimento industrial, milhões de homens tinham que ser disciplinados para realizar atividades repetitivas, como apertar parafusos em linhas de montagem. A gestão dessas pessoas era, em geral, baseada nas chamadas técnicas tayloristas e fordistas, derivadas em parte da tradição militarista de disciplina e controle.

Nesse ambiente, as habilidades socioemocionais (ou social skills) eram consideradas menos essenciais. Em geral, demandava-se fundamentalmente dos trabalhadores de chão de fábrica  força e disciplina: apenas uma pequena elite de executivos era chamada a pensar e interagir, enquanto os demais seguiam as regras.

Esse modelo entrou em crise no final do século passado, com o incrível avanço da informática e da automação. Trabalhadores do chão de fábrica passaram a ser substituídos por robôs, e enormes volumes de trabalho rotineiro foram trocados por computadores. E esse processo continua dia a dia, sem termos ainda uma noção clara de onde vamos parar. Essas mudanças também implicaram um novo mercado de trabalho que precisa de trabalhadores mais qualificados para criar, manter e operar máquinas e sistemas que demandam um esforço intelectual e não apenas braçal.

No setor de serviços, a inteligência artificial é hoje o grande fantasma do mercado de trabalho nos Estados Unidos e começa a se difundir entre nós. Cada vez mais, atividades humanas sofisticadas – inclusive em medicina, direito,  economia ou jornalismo – estão sendo substituídas por máquinas capazes de agir autonomamente realizando diagnósticos, informando decisões nos tribunais e nos mercados de capitais ou mesmo escrevendo pequenos artigos para agências de notícia. Trata-se de uma revolução que passou a afetar seriamente o salário médio e os níveis de emprego americanos, o que também deverá acontecer entre nós.*

Aos poucos o ser humano vai sendo solicitado a levar para o trabalho suas qualidades humanas, aquelas que as máquinas e algoritmos não são capazes de suprir.  Grande parte dessas habilidades são fruto da socialização, aspecto que o ambiente escolar também deveria garantir. Por exemplo, boas escolas devem ser capazes de proporcionar às crianças e jovens o desenvolvimento da capacidade de interagir e cooperar, contribuindo para o sucesso de um grupo. Parece fácil, mas muitos gênios da matemática têm enormes dificuldades nesse campo.

Reunião de equipe
Reunião de equipe

Como dizem os especialistas, a principal habilidade socioemocional é a capacidade de se colocar no lugar do outro: entender como pensa e sente a outra pessoa. É essa capacidade para a empatia que torna possível a construção de acordos, projetos conjuntos e – por que não? – negócios bem-sucedidos. Tudo indica que os computadores ainda vão demorar para  realizar essa proeza.

Num mundo em que as pessoas têm que buscar cada vez mais “empreender” suas próprias carreiras, essa é certamente uma habilidade crítica. Muitas vezes, vemos interações simples se transformarem em algo complexo por conta de colocações abruptas e desnecessárias. A forma e o estilo importam muito no mundo dos humanos, e a falta de uma reflexão maior acaba queimando pontes essenciais para o futuro. Será que estamos desenvolvendo essas habilidades na sala de aula?

Como disse Clarisse Lispector, “ainda não aprendemos a viver: nascer é muito comprido”. Aprender a conviver é, certamente, um passo essencial nessa jornada.

* Para um relevante artigo acadêmico sobre o tema ver: Deming D. (2015).  The growing importance of social skills in the labor market. In: NBER,  Working Paper 21473  http://www.nber.org/papers/w21473


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