Não conseguimos nos comunicar

O domínio da linguagem continua a assombrar toda uma geração de jovens brasileiros

Não conseguimos nos comunicar
Não conseguimos nos comunicar

O domínio da língua portuguesa – ler, interpretar, escrever e comunicar verbalmente – é um dos objetivos primordiais da Educação Básica. Essa é a opinião dos especialistas e é também uma demanda importante dos próprios jovens e dos profissionais de empresas, universidades e ONGs.

Mas mesmo a leitura, a habilidade mais básica, ainda é problemática para muitos. Numa entrevista que fizemos há algum tempo com um empregador de Porto Alegre essa dificuldade fica muito nítida.

A gente percebe que ele mal sabe ler! Eu costumo perguntar: Leu? Entendeu? E eu peço para ele explicar e ele não consegue! 

(Administrador de empresas)

A dificuldade de ler e interpretar os conteúdos lidos traz limitações dramáticas para o futuro dos jovens, tanto os que buscam a universidade como no mercado de trabalho. E estamos nos referindo aqui a habilidades que deveriam ter sido adquiridas ainda no Ensino Fundamental. 

Esse não é apenas um drama individual. A dificuldade de leitura observada em uma grande geração de jovens tem impactos negativos em grande escala. Entre outros aspectos, ela leva à evasão no ensino superior e a elevada rotatividade no mercado de trabalho . 

Quando falamos das habilidades relacionadas à escrita, essas dificuldades também parecem ser mais generalizadas. Mesmo textos simples, requeridos no ambiente escolar ou no contexto do mercado de trabalho apresentam dificuldades para muitos jovens, conforme o depoimento abaixo:

Quando entrei no trabalho tive que escrever um e-mail para a minha supervisora; não sabia nem por onde começar.

(jovem, trabalha)
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Apesar das dificuldades, os jovens destacam claramente a importância de continuar a escrever. Eles reconhecem a necessidade da escrita no ambiente de trabalho e para o próprio exercício da juventude, uma vez que é a base da comunicação nas redes sociais em meio digital.

Talvez seja o caso de começarmos a ensinar os jovens a escrever textos em diferentes formatos, como recados, notícias, cartas ao presidente e e-mails. Ajudaria também se pudéssemos trabalhar com a língua viva, falada nas ruas, para quem tem dificuldade com textos excessivamente formais e distantes da linguagem empregada no contexto em que vivem. 

Finalmente, vale refletir sobre a questão da comunicação oral. Afinal, a comunicação em ambientes públicos continua sendo um problema importante para muitos. Ela é fonte de insegurança e angústia para muitos jovens dos dias de hoje. Isso é claro nos depoimentos colhidos entre os jovens:

Não consigo me expressar ou, até mesmo, ler. É um problema, sou avaliado por isso.

(jovem, trabalha e estuda)

A expressão oral, sobretudo em ambientes formais, envolve habilidades complexas: supõe aspectos como fluência, capacidade de construir argumentos concatenados e uso de vocabulário adequado ao contexto da fala. Em outras palavras, trata-se da construção de uma espécie de texto que, por ser oral, não permite uso do “corretor” ou tempo para revisão; é preciso produzi-lo no ritmo do pensamento. 

Não por acaso, esse tema sempre envolve referências à angústia, à insegurança e ao medo, relacionadas ao ato de se expressar oralmente. E ainda que possam se misturar aqui questões do plano emocional ou comportamental, há certamente aspectos básicos de aprendizagem da língua portuguesa envolvidos. 

Em suma, os jovens brasileiros enfrentam, ainda hoje, muitas dificuldades para ler, escrever e expor argumentos oralmente. Investirmos num aprendizado mais prático e voltado para a realidade do aluno pode, efetivamente, começar a transformar essa realidade.

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